GRCS

10/03/2010

Ministros abrem fogo contra ameaça de alta do pãozinho

       Mesmo com a retaliação aos Estados Unidos, o Brasil tem fontes alternativas de abastecimento. O Uruguai, que em 2008 exportou US$ 32 milhões em trigo ao Brasil, no ano passado vendeu US$ 210 milhões; o Paraguai passou de US$ 152 milhões a US$ 168 milhões.
       O governo brasileiro classificou de "terrorismo" e "especulação" as ameaças da Associação Brasileira da Indústria do Trigo (Abitrigo) de aumentar em 16% o preço do pão e das massas em reação ao aumento na tarifa de importação de trigo proveniente dos Estados Unidos. O aumento da tarifa, que só passa a valer daqui a trinta dias, foi decidido como resultado da disputa movida pelo Brasil contra os EUA na Organização Mundial do Comércio (OMC) contra os subsídios ilegais do governo americano aos produtores locais de algodão.
        "O custo do trigo no pãozinho varia de 10% a 16%; como a restrição de 5% da importação implicaria aumento de 16% no preço?", perguntou o ministro da Agricultura, Reinhold Stephanes. "Isso não tem lógica nenhuma, é terrorismo", afirmou, acusando os moinhos de trigo de querer forçar aumentos de preço, sem motivo. "Isso é pura e exclusivamente especulação em torno de uma medida que será inócua em relação aos preços", concordou o ministro do Desenvolvimento, Miguel Jorge.
       A retaliação aos Estados Unidos foi calculada com base nos dados de importação de 2008, quando, por problemas na safra nacional e na Argentina, o Brasil chegou a importar US$ 319 milhões em trigo dos EUA. Essa situação fez com que o valor das importações fosse o maior entre os itens listados para sofrer sanções (aumentos de tarifa) por parte do governo brasileiro.
       O governo afirma que não gostaria de aplicar as sanções, que são uma maneira de convencer os americanos a negociar o fim dos subsídios ao algodão e compensações pelas perdas dos produtores brasileiros.
       Mesmo que sejam aplicadas retaliações, porém, o valor das importações afetadas deve ser bem menor do que o estimado com base nos dados de dois anos atrás. Já em 2009, as importações de trigo dos Estados Unidos despencaram, para US$ 46 milhões, 3,8% do total. Em 2010, no primeiro bimestre, foram, importados US$ 6 milhões, apenas 2% do total importado.
        O Brasil também vem recorrendo cada vez mais a fontes alternativas de abastecimento. O Uruguai, que em 2008 exportou US$ 32 milhões em trigo ao Brasil, no ano passado vendeu US$ 210 milhões; o Paraguai passou de US$ 152 milhões a US$ 168 milhões. Entre janeiro e fevereiro deste ano, foram importados do Uruguai 550% a mais que no ano passado, US$ 52 milhões.
       A safra nacional não deve ajudar muito a conter os preços, porém. O ministério da Agricultura calcula que a demanda por trigo no país chegará a 10 milhões de toneladas neste ano, das quais serão abastecidas pelo mercado interno 5,8 milhões, o mesmo volume de 2008. O governo tem, ainda, um estoque de 900 mil toneladas. Stephanes acusa os moinhos de esconder o tamanho dos estoques privados, para especular e forçar o aumento dos preços do trigo no mercado nacional. Ele afirma que tem pedido aos moinhos a informação sobre esses estoques, sem sucesso. O ministro suspeita que grande parte do que hoje é abastecido pelos EUA poderia sem simplesmente substituído por trigo mantido nos silos das empresas privadas no Brasil.

(Fonte: Sergio Leo, Valor Econômico - 10/03/2010)

 

 

 

 

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