GRCS

10/07/2020

Crescimento econômico sem limites coloca sociedade e Planeta em risco crescente

 Para o engenheiro florestal Acácio Zuniga Leite, é urgente novo modelo de produção baseado numa economia de baixo carbono.

Não há nenhuma árvore que o vento não tenha sacudido. (Provérbio hindu)

Rosângela Ribeiro Gil
Oportunidades na Engenharia
Texto atualizado em 10/7/2020

300 Acacio ZunigaAcácio Zuniga Leite.“O alerta que o Planeta está dando, inclusive com o aumento da frequência das pandemias, é que estamos indo por um caminho errado de desenvolvimento.” A advertência é do engenheiro Acácio Zuniga Leite, santista de nascimento, mas que vive, há 13 anos, em Brasília, como funcionário do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), autarquia federal.

Para celebrar o Dia do Engenheiro Florestal, neste 12 de julho, entrevistamos Leite sobre sua trajetória na carreira, que fez questão de destacar as atividades profissionais e sua preocupação sobre os rumos da preservação ambiental no Brasil e no mundo. “Urge mudar o modelo de produção e também a necessidade de constituir uma economia de baixo carbono”, aponta.

O engenheiro diz que tem uma “formação um pouco eclética, mas relacionada à multidisciplinaridade do debate ambiental”. Ele se graduou na área, em 2005, aos 23 anos, na Escola Superior de Agricultura "Luiz de Queiroz" da Universidade de São Paulo (Esalq/USP). Em 2010, fez uma especialização em ciência política na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Em 2014, iniciou o mestrado em meio ambiente e desenvolvimento rural na Universidade de Brasília (UnB) e, neste momento, está totalmente envolvido no doutorado na mesma instituição de ensino, com o tema desenvolvimento sustentável. “Além desse processo formal de educação procuro sempre que possível fazer cursos pontuais e, agora na pandemia, aproveitar para assistir alguns debates temáticos na internet.”

Segundo estatísticas do Conselho Federal de Engenharia e Agronomia (Confea), o País tem, atualmente, 14.576 engenheiros florestais.

Como se deu a escolha pela engenharia florestal?
Não foi muito bem uma escolha consciente. Eu sabia o que não queria e tinha um leque de opções. Daí, tentei colocar na balança os prós e contras, muito com base nos guias de cursos e profissões que existiam no fim dos anos 1990. Não sei exatamente porque tomei essa decisão e não outra. Sequer conhecia alguém da profissão, mas foi uma decisão feliz.

Você saiu da graduação e prestou concurso?
Sim. Prestei o concurso do Incra e fui aprovado. Entre o período da aprovação e da convocação fiz muitos trabalhos pontuais de levantamento florístico, inventários florestais e estudos de suporte para a restauração de áreas degradadas. Também fui contratado por uma cooperativa que atuava na assistência técnica em assentamentos da reforma agrária no extremo oeste paulista, onde já havia realizado meu estágio profissionalizante de fim de curso.

Pode nos falar de algumas das atividades do engenheiro florestal?
De tudo um pouco do que você possa imaginar! Temos uma base interdisciplinar com uma formação técnica sólida nas áreas de produção florestal, conservação da natureza e tecnologia da madeira, dentre outras áreas. A água que recebemos em casa tratada exige um planejamento do uso da bacia hidrográfica e proteção das áreas de preservação permanente. Os móveis da sua casa provavelmente são feitos de madeira ou de produtos derivados da madeira, como o MDF. Esse papel em que você faz anotações tem toda uma cadeia florestal por traz. Existe um profissional da engenharia florestal envolvido nessas atividades.

600 Acacio Zuniga 2Acácio Zuniga Leita em apresentação de um Diagnóstico Rápido Participativo em assentamentos no Pontal do Paranapanema (SP), em 2006. Crédito: Arquivo pessoal.


A engenharia florestal está distante da cidade?
Não necessariamente. Hoje, há uma disciplina chamada Silvicultura Urbana que trabalha com o planejamento e a relevância da vegetação nas cidades, desde a arborização de ruas e avenidas passando pelos parques urbanos e outras áreas verdes. Vale lembrar também a necessidade de proteção dos rios por matas ciliares, inclusive nas cidades. A infraestrutura verde tem sido, cada vez mais, uma pauta no planejamento das cidades.

“No ano passado o Brasil registrou a maior taxa de desmatamento na Amazônia Legal dos últimos dez anos e este cenário tende a piorar. Já foram desmatados 566 mil hectares apenas entre agosto de 2019 e abril de 2020, o que revela, segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), uma tendência de aumento de 94% em relação ao período anterior.” Imazon (Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia).

Vivemos num País com muitos conflitos na área do meio ambiente.
A agenda ambiental, no Brasil, ganha importância principalmente a partir dos anos 1970 e assume uma outra tonalidade nos anos 1980 com a emergência de uma agenda ambiental popular, em especial com o Chico Mendes e a luta dos povos da floresta. Depois veio a ECO 92 [foi uma conferência de chefes de estado organizada pelas Nações Unidas e realizada de 3 a 14 de junho de 1992 na cidade do Rio de Janeiro, cujo objetivo foi debater os problemas ambientais mundiais] e a pauta do desenvolvimento sustentável ganha relevância e capilaridade na sociedade.

Nesse processo, se forjou um capítulo sobre o meio ambiente na Constituição [brasileira] sobre a proteção específica dos biomas e um sistema nacional de meio ambiente, o Sisnama [Sistema Nacional do Meio Ambiente, criado pela Lei 6.938/1981], contando com entes das três esferas do poder executivo e um espaço de participação e incidência da sociedade civil, como os comitês de bacias hidrográficas e o Conselho Nacional de Meio Ambiente. Infelizmente, estamos vivendo um momento de desmonte da agenda ambiental e de completo desrespeito aos preceitos constitucionais de 1988.

“Art. 225. Todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao poder público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações.” Constituição Federal.

400 Acacio Zuniga 3 editadaTrabalho de inventário florestal em um assentamento no município de Rancharia (SP), em 2006. Crédito: Arquivo pessoal.Você é funcionário do Incra, mas está, no momento, licenciado desenvolvendo doutorado. Pode nos falar sobre o trabalho no Incra, quando entrou para o órgão? Pode nos falar um pouco de suas pesquisas no stricto sensu.
Entrei no Incra em setembro de 2006, o que fez com que eu migrasse para Brasília. No instituto, tive atuação principalmente na Diretoria de Desenvolvimento de Projetos de Assentamento, atuando diretamente na elaboração de políticas públicas envolvendo o crédito rural, assistência técnica e a agroindustrialização. No meu mestrado estudei os propulsores do desenvolvimento dos assentamentos de reforma agrária e agora durante o doutorado estou analisando as relações do desenvolvimento regional com as diferentes formas de posse e uso da terra nas fronteiras agrícolas.

"O desmatamento na Amazônia teve mais um mês de alta em relação ao ano anterior,
o 14º seguido, e é o maior desde 2916, segundo dados do Deter -
programa do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe)." Folha de S.Paulo, 10/7/2020.


Engenheiro, você é de Santos, no litoral paulista, mas está há pelo menos dez anos em Brasília. Pode nos falar um pouco dessa mudança, da sua família e como conciliou até o momento a atividade profissional com a vida pessoal?
Primeiro, mudei para Piracicaba, em 2001, para estudar na Esalq e nunca mais voltei a ter moradia em Santos, embora aprecie muito a cidade. A vida profissional me levou cada vez mais para longe de Santos e do mar. É ruim para a convivência familiar, mas sempre encarei como parte da vida.

O cenário criado pela pandemia é um alerta sobre a relação da sociedade com o meio ambiente?
A relação da sociedade com o meio ambiente está colocada não só pela questão da pandemia, mas por uma série de distúrbios que a gente tem observado nos últimos tempos relacionados ao modelo hegemônico de desenvolvimento. Menciono, por exemplo, as mudanças climáticas relacionadas ao Brasil principalmente pelo uso da terra e o desmatamento, e o avanço da fronteira agrícola.

O alerta que o Planeta está dando, inclusive com o aumento da frequência das pandemias, é que estamos indo por um caminho errado de desenvolvimento. Principalmente porque ele parte de um princípio de crescimento econômico sem limites - e isso tem desdobramentos concretos na nossa relação com a natureza. Por exemplo, a expansão das fronteiras agrícolas e o aumento do desmatamento estão nos aproximando de um ponto crítico sem retorno, que afetaria a produção agrícola no centro-sul [do País] e a produção de água para as cidades.

 

Urge mudar o modelo de produção e também a necessidade de constituir uma economia de baixo carbono.

 

 

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