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04/06/2020

Engenharia de agrimensura atua na produção e gestão de geoinformações

A profissão auxilia no planejamento do território e nas construções; neste momento de pandemia, vem fazendo estudo de mapas da propagação da doença

Rosângela Ribeiro Gil
Oportunidades na Engenharia

 

Ele se diz apaixonado pela profissão que abraçou. Em 1986, aos 24 anos de idade, se formou pela Faculdade de Engenharia e Agrimensura de Pirassununga (Feap). Aos 58 anos, o engenheiro agrimensor Régis Fernandes Bueno tem uma trajetória profissional que compreende atividades em empresas privadas, órgãos públicos e até instituições internacionais, como a Organização das Nações Unidas (ONU). Em 1999, resolveu constituir a Geovector Engenharia Geomática. “Este ano a empresa completa 21 anos”, diz orgulhoso.

 

600 Agrimensor Regis 3Régis Fernandes Bueno fazendo determinação de trajetórias no rio Aripuanã, em Mato Grosso, em 2003. Crédito: arquivo pessoal.

 

Além da graduação, Bueno fez mestrado em Engenharia de Transportes, em 1995; e doutorado, em 2007, na Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (Poli-USP). Ele diz que teve o privilégio de ter dois grandes exemplos profissionais e de vida, o pai e o irmão, também ligados à agrimensura. “Com eles, aprendi a aprender, pois eu não só recebia os ensinamentos teóricos na faculdade, mas tinha o privilégio de contar com eles diariamente nos aspectos teóricos e práticos. Meu pai aplicava soluções diferentes e variadas a problemas semelhantes só para nos ensinar”, lembra.

 

Em sua entrevista pelo Dia do Engenheiro Agrimensor, celebrado neste 4 de junho, Bueno diz que a atividade remonta a civilizações antigas e que os agrimensores não apenas cuidam da medição, demarcação e documentação de terras privadas e públicas, “mas atuam também no planejamento do território e nas construções”. Neste momento de pandemia, os profissionais da área ajudam na realização de estudos e mapas da propagação do novo coronavírus. Faz questão de ressaltar que a atividade já foi exercida por grandes nomes, como três presidentes dos Estados Unidos.

 

Como optou pela engenharia agrimensura?
Ocorreu após ter a oportunidade de participar de um trabalho de demarcação dos perímetros de concessão de lavra de granito, em Itapecerica da Serra (SP). Já estava cursando Engenharia Agrícola, mas gostei das atividades que aprendi e decidi fazer um novo vestibular e recomeçar na Engenharia de Agrimensura.

 

A família, de alguma forma, influenciou nessa escolha?
Certamente que sim, mas nada foi imposto, se deu mais pelos exemplos e experiências. Eu e meus irmãos tivemos liberdade para escolher. Mas na minha família tem alguns engenheiros por gerações. A maior influência veio do meu pai, o engenheiro agrimensor Osmar de Paula Bueno. Convivemos muito profissionalmente. Com ele aprendi sobre a agrimensura e sua interface com o Direito, pois ele também era advogado.

 

Como foi o início da sua carreira na profissão?
Durante toda a graduação e por mais alguns anos, exerci minhas atividades no escritório que mantinha com meu pai e meu irmão, após a formatura já dividia a responsabilidade técnica por alguns trabalhos. Assim executava levantamentos fundiários, pequenos projetos e perícias judiciais. Depois vim para São Paulo para trabalhar na Consurb, tradicional empresa do ramo imobiliário. Lá geria os levantamentos, implantação de loteamento, obras e desenvolvia também projetos.

 

600 Agrimensor RegisCampeonato Brasileiro de Balonismo, desenvolvendo e inovando metodologia em padrão internacional para determinação da pontuação da prova de alvos. Crédito: arquivo pessoal.

 

Alguns anos depois tive a oportunidade de usar os conhecimentos adquiridos sobre a tecnologia GPS [Global Positioning System] como consultor na Sabesp [Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo], pela Maubertec, apoiando a construção da rede geodésica para toda a Grande São Paulo, bem como pude adequar normas de alguns serviços de topografia que aquela companhia adquiria ou realizava.

 

Trabalhei também na Pertécnica, com elaboração de propostas para projetos do Incra [Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária]. Como professor, tive oportunidade de lecionar para turmas de Engenharia Civil e de Arquitetura em instituições de ensino. Junto com vários profissionais, empresários e pesquisadores tenho o prazer de contribuir e aprender no âmbito do CB02 da ABNT [Associação Brasileira de Normas Técnicas] desde 1994. 

 

Quais as atividades de um engenheiro agrimensor?
Esta é uma questão interessante porque nos preocupamos com a produção e gestão de geoinformações em suporte a diversas outras atividades científicas, de engenharia e de Estado.

Há milênios, os agrimensores não apenas cuidam da medição, demarcação e documentação de terras privadas e públicas, eles atuam também no planejamento do território e nas construções. Essas atividades nos exigem conhecimentos em várias ciências, entre elas a Geodésia, a Topografia e a Cartografia. Três presidentes norte-americanos também se dedicaram à agrimensura: George Washington, Thomas Jefferson e Abraham Lincoln.

 

No Brasil, até pouco tempo, havia dois cursos de Engenharia semelhantes em currículo e atribuições. Hoje estão unificados nos cursos de Engenharia de Agrimensura e Cartografia ou Cartografia e Agrimensura, conforme a escola. Há uma tendência, no mundo, de que o nome se modifique para Engenharia Geomática, termo que surgiu pela primeira vez em 1971.

 

Por que a profissão é importante para a sociedade?
Nossas atividades constroem um importante ativo da nossa era. O nosso trabalho de campo para coleta de informações espaciais ou geoinformações que são sistematizadas como documentos cartográficos (mapas etc.), modelos digitais de objetos (superfície, estruturas, cidades etc.), procedimentos, estudos diversos, vão subsidiar diversas atividades que vão da gestão territorial ao projeto, construção e gestão de infraestrutura. Um exemplo interessante são os recentes estudos em mapas da propagação do [novo] coronavírus feitos com a colaboração de cursos de Engenharia de Agrimensura e Cartografia na Unesp [Universidade Estadual Paulista] e na UFBA [Universidade Federal da Bahia].

 

Como tem sido o seu aperfeiçoamento na área?
Quando ingressei na faculdade, meu pai já havia se aposentado do Instituto Geográfico e Cartográfico, indo residir em Casa Branca no interior do Estado [de São Paulo] e próximo a Pirassununga. Por esta época ele montou um escritório com meu irmão que já era técnico em Agrimensura e passou a cursar a faculdade comigo. Com estes dois mentores aprendi a aprender, pois eu não só recebia os ensinamentos teóricos na faculdade, mas tinha o privilégio de contar com eles diariamente nos aspectos teóricos e práticos. Meu pai aplicava soluções diferentes e variadas a problemas semelhantes só para nos ensinar.

 

Na Poli-USP, pude conviver com professores, pesquisadores e colegas de pós, todos de alto nível, com quem pude aprender muito. Convivia não só com engenheiros de formação, mas também com rádios astrônomos, físicos, matemáticos e pessoas de outras formações, entre professores e alunos. Participávamos de projetos de transferência de tecnologia e interagíamos com pesquisadores de outras universidades daqui, da Europa e dos Estados Unidos. Também fazia cursos extras pela FDTE [Fundação para o Desenvolvimento Tecnológico da Engenharia], na área de perícias e gestão. O aperfeiçoamento veio também de diversos congressos, palestras e artigos. Hoje temos a facilidade do ensino a distância; então continuo dedicando uma parte do meu tempo a aprender com eles, bem como a leitura constante de artigos científicos, webinars, vídeos etc. A dinâmica de hoje nos exige manter atualizados.

 

Desafios ao longo da carreira.
Como todo ser humano tive oportunidades de enfrentar várias circunstâncias que o conhecimento próprio e a história pessoais são postos à prova. Por exemplo, citaria os desafios impostos pelas pesquisas que desenvolvi no mestrado e doutorado. Naquela época escolhi continuar minhas atividades profissionais e desenvolver minhas pesquisas; foram anos de trabalho e dedicação.

 

Também desenvolvi projetos que me levaram a percorrer a Amazônia como consultor do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento [Pnud, da Organização das Nações Unidas – ONU] e da Fundação Nacional do Índio (Funai), elaborando estudos e normas sobre demarcações de Terras Indígenas. Realizei também demarcações geodésicas de duas destas grandes áreas públicas que envolveram mais de 11 milhões de hectares. Estes projetos consumiram meses de planejamento de operações e treinamento de equipes que operariam no ambiente inóspito do interior da selva, onde só chegávamos de helicóptero, avião ou barco. Além da logística complicada pelo ambiente e a distância dos centros urbanos, as pessoas eram levadas ao extremo. O mesmo se dava com os equipamentos que, além de cuidados especiais para manter-se em operação, necessitavam de unidades de reserva, para imediata substituição.

 

Outro projeto interessante foi a monitoração geodésica na construção do anel de compressão do Estádio Nacional de Brasília, quando foi necessário desenvolver metodologias, a partir do conhecimento já acumulado com minhas pesquisas, para extrair o máximo de desempenho dos equipamentos e das equipes de forma para que atingíssemos os objetivos mensuração e locação naquela obra.

 

Como a área vem se alterando com as novas tecnologias?
Como as demais engenharias, a de Agrimensura e de Cartografia tem passado por quebra de paradigmas, em função de tecnologias disruptivas ao longo do tempo.  O desenvolvimento científico nos traz, frequentemente, novas tecnologias e ferramentas que impõem desafios frequentes à profissão.

 

600 Agrimensor Regis 5Trabalho de identificação da cabeceira do ribeirão Quati (SP), em 2002. Crédito: arquivo pessoal.

 

Além da própria revolução da informática, entrou em rotina nas nossas atividades o desenho assistido por computação (CAD), sensoriamento remoto, cartografia automatizada, a difusão do posicionamento por satélite (GPS/GNSS), o geoprocessamento e sistemas de informação. A aerofotogrametria entrou na fase digital, substituindo os equipamentos restituidores e as câmaras de filme por sistemas e câmaras digitais. Hoje é acrescentada pela introdução das plataformas drone [veículo aéreo não tripulável], que também estão na batimetria e hidrografia ou em operações terrestres. Já há disponibilidade de soluções com robôs portando scanners de alta precisão que geram nuvens de pontos coordenados e imagens por refletância.

 

Estas são apenas algumas das tecnologias que temos à disposição. O poder de informação que são capazes de proporcionar é muito grande e abre novas fronteiras que os cursos de graduação devem acompanhar. É preciso dispor ao serviço da sociedade, profissionais capacitados para, a partir de conceitos científicos sólidos, solucionar os mais variados tipos de problemas. Essa evolução está mudando modelos na sociedade, impulsionando alterações de procedimentos; quer seja do setor público ou privado.

 

Entraremos em uma nova fase com o Sistema Nacional de Gestão de Informações Territoriais (Sinter) e a regularização fundiária que provocarão também mudanças semelhantes para os imóveis urbanos. Os municípios estão sendo estimulados a construir o Cadastro Técnico Multifinalitário (CTM), localizando e sistematizando vários tipos de geoinformações, cuja adequada utilização os conduzirão a patamares superiores de gestão. Ainda temos a era do Building Information Modeling (BIM), das chamadas cidades inteligentes, do guiamento de máquinas na agricultura, obras, transportes e outras áreas.

 

Como a sua vida pessoal acompanhou uma profissão tão ativa?
Meus pais foram funcionários públicos, minha mãe professora e o meu pai já contei um pouquinho. Sou casado com uma pessoa maravilhosa, que amo muito e vieram nossas filhas: uma já formada pela USP e outra em formação pela Unifesp [Universidade Federal de São Paulo]. Procuramos sempre provê-las com bons estudos, pois aprendi com minha família que isso é primordial para o desenvolvimento, não apenas pessoal, mas de toda uma sociedade.

 

Como o senhor está vendo a engenharia neste momento em que o mundo inteiro passa pela crise causada pela pandemia do novo coronavírus?
O engenheiro precisa ter uma vivência de campo, da observação dos fenômenos, das atividades que desenvolve ou gere e do convívio com pessoas de variados tipos. A engenharia tem absorvido bem a questão de aprendizado e trabalho a distância. Antes mesmo da pandemia já estávamos caminhando no sentido de processos com grande taxa de automação nas atividades. As maiores dificuldades talvez sejam a coleta de dados e as obras.

 

Com a experiência e a mudança de comportamentos que decorrem desta pandemia poderemos experimentar a consolidação e disseminação de tecnologias e procedimentos, com as pessoas interagindo à distância e acelerando processos.

 

>> Essa e outras modalidades da Engenharia você encontra no nosso Mapa da profissão

 

 

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