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26/08/2019

O desmonte da Petrobras

 

As privatizações geram lucros não recorrentes e prejudicam os resultados futuros da Petrobras. A companhia divulgou lucro líquido de R$ 18,9 bilhões no segundo trimestre, resultado influenciado pela venda de 90% da participação na Transportadora Associada de Gás (TAG) e a privatização da BR Distribuidora. Os desinvestimentos fazem parte de um plano de priorização da exploração e produção em águas profundas, especialmente no pré-sal, reduzindo participação ou se retirando completamente dos demais negócios, como transporte, refino, petroquímica, distribuição, fertilizantes, biocombustíveis e produção em campos terrestres.

 

“Os desinvestimentos somaram US$ 15 bilhões até o final de julho, com destaque para as transações da TAG, da BR Distribuidora.” (Petrobras, 2019)

 

A direção da Petrobras insiste no pretexto da necessidade de redução da dívida para justificar a privatização de ativos rentáveis e estratégicos. A Petrobras reduziu sua dívida líquida de US$ 115,4 para US$ 69,4 bilhões e sua alavancagem (dívida líquida / indicador EBITDA ajustado) de 4,25 para 2,20, entre o final de 2014 e de 2018. Nesse mesmo período de quatro anos, a Petrobras vendeu ativos no valor de US$ 18,72 bilhões. Desse total, os valores efetivamente recebidos em caixa totalizaram US$ 11,81 bilhões.

A dívida poderia ser reduzida mesmo sem essa entrada no caixa. Na realidade, as privatizações tiveram influência pouco relevante na redução do endividamento líquido da companhia. Limitou-se a 25,65% entre 2015 (final de 2014) e 2019 (final de 2018) que pode ser atribuída à venda de ativos. Cerca de três quartos (74,35%) tiveram origem na geração operacional de caixa da Petrobras.

Verifica-se que mesmo sem vender qualquer ativo a dívida líquida da Petrobras teria sido reduzida de US$ 115,4 para US$ 81,19 bilhões, do final do exercício de 2014 ao final de 2018, atingindo indicador de alavancagem (dívida líquida / EBITDA ajustado) de 2,58, resultado próximo à meta arbitrada pela direção da companhia de 2,50.

Na realidade, o resultado teria sido ainda melhor, porque nessa estimativa não foi considerada a perda de geração operacional de caixa decorrente da venda de ativos altamente rentáveis, como a malha de gasodutos da Nova Transportadora do Sudeste (NTS), subsidiária integral da Petrobras.

A meta e o prazo para o indicador de alavancagem, ainda que arbitrários, de 2,50 para o final de 2018, seriam atingidos, mesmo sem privatizar um único ativo da Petrobras entre 2015 e 2018.

Com relação ao argumento de que a “Petrobras se defronta ainda com alavancagem financeira excessiva para uma companhia produtora de commodities e, portanto, exposta à volatilidade de preços e consequentemente de fluxo de caixa” (Petrobras, 2019), deve-se recorrer aos resultados históricos da Petrobras.

 

Figura 1: EBITDA ajustado da Petrobras e preço médio do petróleo Brent, anuais, em US$ corrigidos para 2018.

 

Em 2013, o EBITDA ajustado da Petrobras foi de US$ 31,96 bilhões, enquanto em 2018 o resultado foi muito próximo, de US$ 31,50 bilhões, mesmo diante da queda do preço médio do petróleo Brent de US$ 118 para US$ 71 por barril entre 2013 e 2018.

Em 2014, o EBITDA ajustado foi de US$ 26,66 bilhões, enquanto em 2016 o resultado foi equivalente, de US$ 27,01 bilhões, mesmo diante da queda do preço médio do petróleo de US$ 106 para US$ 46 por barril entre 2014 e 2016 (valores corrigidos para US$ de 2018).

A resiliência da Petrobras em relação à queda dos preços do petróleo e à variação da taxa de câmbio é resultado da sua integração, desde a exploração e produção do petróleo ao seu refino e distribuição dos derivados. A alegada vulnerabilidade da companhia não existe, mas será resultado das desnecessárias e lesivas privatizações promovidas pela direção da Petrobras desde 2015 e aceleradas atualmente.

O somatório do lucro operacional do abastecimento da Petrobras nos anos de 2015, 2016 e 2017 registrou US$ 23,7 bilhões, em valores corrigidos para 2018, enquanto o E&P (índice relativo à exploração e produção) obteve US$ 9,4 bilhões no mesmo período, quando o preço do petróleo médio foi de US$ 52,68 por barril.

A privatização de refinarias, terminais, dutos e distribuidora traz prejuízos muito mais graves à resiliência e sobrevivência da Petrobras, com preços moderados de petróleo, do que presumíveis benefícios pela redução dos gastos com juros decorrentes da antecipação da redução da dívida. (AEPET, 2019)

 

Figura 2: Investimento anual da Petrobras, em bilhões de US$ corrigidos para 2018.

 

Entre 2009 e 2014, a Petrobras investiu US$ 292 bilhões, média anual de US$ 49 bilhões. Na divulgação do balanço trimestral, o atual presidente da companhia, Roberto Castello Branco, afirmou que os investimentos previstos para 2019 foram reduzidos de US$ 16 bilhões para intervalo entre US$ 10 bilhões e US$ 11 bilhões. (Valor Pro, 2019) A drástica redução dos investimentos faz parte do desmonte da Petrobras.

A privatização da TAG e da BR Distribuidora promove a desintegração da companhia, na contramão da indústria petrolífera mundial. Compromete o abastecimento nacional aos menores custos possíveis e prejudica o desempenho empresarial da Petrobras, em especial diante de preços moderados do petróleo cru.

A aceleração das vendas dos ativos da Petrobras é resultado de decisão puramente ideológica, não tem coerência com as tendências da indústria internacional e não se justifica diante da realidade empresarial e financeira da companhia e de sua condição de estatal. (Coutinho, 2019)

 

Felipe Coutinho é presidente da Associação dos Engenheiros da Petrobras (Aepet)

http://www.aepet.org.br/

 

Referências

AEPET (2019). A falácia da privatização para redução da dívida da Petrobras - Avaliação econômico-financeira da influência das privatizações na redução da dívida da Petrobras. Fonte: http://www.aepet.org.br/w3/index.php/conteudo-geral/item/2953-falacia-da-privatizacao-para-reducao-da-divida

 

AEPET (2019). Avaliação da iniciativa de privatização da Transportadora Associada de Gás S.A. (TAG). Fonte: http://aepet.org.br/w3/index.php/2017-03-29-20-29-03/cartas-da-aepet/item/2965-avaliacao-da-iniciativa-de-privatizacao-da-transportadora-associada-de-gas-s-a-tag

 

AEPET (2019). Importância do refino, do transporte e da distribuição do petróleo e de seus derivados para o Brasil e a Petrobras. Fonte: http://www.aepet.org.br/w3/index.php/conteudo-geral/item/2873-importancia-do-refino-do-transporte-e-da-distribuicao-do-petroleo-e-de-seus-derivados-para-o-brasil-e-a-petrobras

 

Coutinho, F. (2019). Direção da Petrobras acelera na contramão com privatizações. Fonte: http://aepet.org.br/w3/index.php/conteudo-geral/item/3407-direcao-da-petrobras-acelera-na-contramao-com-privatizacoes

 

Coutinho, F. & Assis, J. C. (2016). Existe alternativa para reduzir a dívida da Petrobras sem vender seus ativos. Fonte: https://felipecoutinho21.files.wordpress.com/2016/10/existe-alternativa-para-reduzir-a-divida-da-petrobrc3a1s-sem-vender-seus-ativos_rev0.pdf

 

Petrobras (2019). Desempenho da Petrobras no 2T19. Fonte: https://www.investidorpetrobras.com.br/ptb/15294/9512_703242..pdf

 

Valor Pro. (2019). Petrobras reduz previsão de investimento para 2019, de US$ 16 bi para de US$ 10 bi a US$ 11 bi.

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