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05/06/2019

Artigo - A mobilidade como um serviço integrado e compartilhado

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Jurandir Fernandes*

Depois de um século XX voltado ao consumo nada mais lógico que um século XXI com grandes estoques de bens ociosos. Vejam o caso do automóvel. As linhas de montagem alavancando a produção ao lado de sistemas de crédito alavancando o consumo fizeram explodir a frota mundo afora.

Estima-se que são utilizados em menos de 5% de seu tempo de vida com uma ocupação média em torno de 25% de sua capacidade. No resto do tempo permanecem estacionados. Utilizamos pouco mais de 1% de um estoque de milhões de carros cuja cadeia produtiva responde por 13% do PIB mundial. Um enorme esforço para criar uma gigantesca capacidade ociosa ocupando preciosos espaços urbanos.

De outro lado há milhões de trabalhadores desempregados e milhões que já desistiram de lutar por um emprego “com carteira assinada”. Bens de capital e de consumo de um lado e força de trabalho de outro, ambos ociosos ou subutilizados vão em busca de novas formas de se relacionar. A economia de compartilhamento é uma delas.

Compartilhar bens não é novidade. A economia compartilhada envolvendo multidões é o fato novo. Ocorre não apenas porque bens ociosos demonstram o uso irracional de recursos naturais finitos mas também porque as plataformas digitais e as redes sociais tornaram possível a criação de ecossistemas de compartilhamento no bairro, na cidade ou no planeta. Multidões participando de economias compartilhadas é marca deste século.

No entanto, nem tudo são flores. O compartilhamento de bens dentro de uma comunidade se dá diretamente entre os pares. Quando milhares de motoristas compartilham assentos em seus carros com milhares de pessoas que viajam na mesma direção há a necessidade de um gestor e de recursos operacionais sofisticados para gerenciar todo o processo. Há custos sobre estas relações de compartilhamento que passam a ser mediadas por dinheiro. Surgem então novas empresas, sob novos modelos econômicos, dando forma a um capitalismo de multidões com novas relações de produção. Novas relações entre capital e trabalho. As conquistas de dois séculos de lutas sindicais estão em jogo.

Os efeitos sobre a velha economia se fazem sentir por toda parte. Antigas corporações tentam segurar o tsunami de mudanças através de leis, decretos e gritos ancorados no passado. Desconsideram que há uma mudança comportamental profunda no ato de consumir. Multidões se desapegam dos bens e vão em busca do serviço: querem se deslocar e não possuir um carro ou bicicleta, querem se hospedar e não ter uma casa de praia, querem ouvir uma música e ver um filme e não comprar o CD ou o DVD.

As mudanças não param por aí. A economia passa a compartilhar não só os bens e serviços, mas também o controle da qualidade do que se vende ou troca. Os que não cumprem o prometido são mal avaliados e por vezes eliminados da plataforma digital. Os consumidores do século XXI estão mais independentes dos velhos e burocráticos órgãos governamentais de controle.

Todas estas mudanças afetaram, e muito, a mobilidade urbana. Os que utilizam o transporte público não podem ser vistos como usuários dependentes de um sistema rígido, sem flexibilidade de horário, com pontos de parada e itinerários eternamente fixos. Dependentes de órgãos gestores desconexos administrando sistemas não integrados e com meios de pagamento distintos. Dependentes de governantes populistas que lhes aplacam a abstinência de um bom transporte com gratuidades oportunistas. A UITP em recente documento definiu que a Mobilidade como um Serviço (MaaS) deve contemplar a integração e o acesso a todos os serviços (transporte público, carros, bicicletas ou patinetes compartilhados, taxis, carros alugados, caronas, etc.) em uma única plataforma digital tendo a mobilidade ativa e um eficiente sistema de transporte público como espinha dorsal. As soluções implantadas devem ser capazes de suprir da melhor forma possível as necessidades de viagem do passageiro. A mobilidade como um serviço deve nos permitir viver em nossas cidades sem ter que possuir um carro.


jurandir boneco

* coordenador do Conselho de Transporte e da Mobilidade do Seesp e presidente latino-americano da  União Internacional de Transporte Público na América Latina UITP

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