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31/08/2018

Entrevista - Da carreira de sucesso à luta pela categoria

Rosângela Ribeiro Gil
Oportunidades na Engenharia
Edição Rita Casaro


À frente de uma entidade fundada em 1934 que representa cerca de 200 mil profissionais em todo o Estado de São Paulo, Murilo Pinheiro se diz realizado pela carreira escolhida e bem-sucedida e por ter passado a se dedicar à representação da categoria nas diversas lutas do Sindicato dos Engenheiros no Estado de São Paulo (SEESP), do qual é presidente.


Foto: Beatriz Arruda/SEESP
700 Murilo SEESPCom a vontade de ser um realizador, Murilo optou pela engenharia: "Queria criar e construir alguma coisa."


Engenheiro eletricista formado em 1978 pela Universidade de Mogi das Cruzes (UMC), Murilo iniciou sua vida profissional na Companhia Energética de São Paulo (Cesp) em 1980. Nessa companhia, atuou na assessoria da Diretoria de Distribuição e na assessoria executiva da Presidência na coordenação de Relações Comunitárias, na área de liberação de máquinas em usinas hidroelétricas, no intercâmbio de energia do sistema interligado nacional; desenvolveu e coordenou trabalhos no escritório técnico de Campos do Jordão e Atibaia, na implantação e manutenção de linhas de distribuição e subestações. Após a cisão da empresa, passou à Companhia de Transmissão de Energia Elétrica Paulista (Cteep), na qual exerce o cargo de assessor da Presidência, estando atualmente licenciado para a atividade sindical.


Aos 64 anos de idade e 40 de formação, ele celebra a oportunidade de atuar pela valorização e em defesa dos profissionais que são essenciais ao desenvolvimento do País e bem-estar da população. Nessa entrevista especial, ele conta como foi o seu encontro com a engenharia, o estudo, os primeiros passos no exercício da profissão e como o sindicato entrou na sua vida. Entusiasta, ele dá um conselho à juventude: “Faça engenharia, porque ela dá condição de trabalhar em qualquer lugar.”

 

Como foi a sua decisão de cursar engenharia?

Já tinha essa vontade desde muito jovem, ainda no colégio. Queria fazer alguma coisa que tivesse inteligência, imaginação e que criasse algo de fato.

 

E como foi sua opção pela modalidade de elétrica?

Sempre gostei muito de mexer com energia, eletricidade. Para mim, era uma área bastante desafiadora. E, à época, era uma das modalidades mais difíceis. Sabia que esse seria o campo para eu construir alguma coisa.

 

A faculdade atendeu a essa expectativa?

Quando a gente entra no curso, os dois primeiros anos são básicos, cálculos (numérico e diferencial integral), geometria descritiva e analítica, física, química, então você não consegue ver aplicação da engenharia. Tivemos a nossa faculdade aqui no sindicato, o Isitec (Instituto Superior de Inovação e Tecnologia), que já nasceu com essa proposta diferenciada. O nosso aluno, já no primeiro ano, sabia o que ele ia fazer e qual a ligação com a realidade. Isso é uma coisa que todos os cursos deveriam ter.

 

Após a graduação, como foi entrar no mercado?

Antes devo dizer que estagiei em diversos locais. Já formado criei, junto com dois amigos engenheiros, uma empresa na área. Ela se chamava Proexel, de Projeto e Execução Elétrica. Antes fiz especialização em aterramentos elétricos e proteção catódica. Também fui convidado a trabalhar, como consultor técnico, de uma empresa chamada Erico do Brasil, que fabricava hastes acobreadas e fazia solda exotérmica. Tudo em São Paulo.


Depois prestei concurso público para a Cesp, passei e depois de quase um ano fui chamado. Comecei na companhia em 1980, na cidade de Atibaia. Já era casado e esperava o meu primeiro filho. Fiquei quase um ano lá, mas fui convidado para ser gerente técnico em Campos de Jordão, e minha família foi junto. Ficamos quase quatro anos em Campos, onde também nasceu a minha filha.


Estava muito bem em Campos de Jordão, mas pedi transferência porque o meu filho não se adaptou ao clima frio. Por recomendação médica, saí de lá e reiniciei minha carreira profissional na Cesp na Capital. Não importava a dificuldade que enfrentaria em uma nova função e atividade, o que eu queria era poder cuidar do meu filho mais adequadamente. Do trabalho eu não tenho medo, vou atrás, enfrento, me viro. E a Cesp era a maior empresa do Estado de São Paulo e uma das maiores do próprio Brasil.

 

Nesses 40 anos o que mudou no ensino e no fazer engenharia?

Acredito que o nosso ensino precisa e pode melhorar muito para garantir a formação de profissionais bem capacitados para enfrentar qualquer mercado de trabalho. Um ensino precário contribui para o profissional sair e não se sentir seguro para trabalhar, aí ele tem de se esforçar muito mais. Foi pensando em ter um ensino de excelência que criamos e tivemos o Isitec até o primeiro semestre deste ano.

 

Como o senhor vislumbra essa engenharia no País?

Ainda temos muito poucos engenheiros e engenheiras no Brasil, precisamos de mais. E com participação maior nas questões cruciais da sociedade. Fala-se muito, e é verdade, que a engenharia está em tudo. O engenheiro não quer bater no peito e dizer apenas “sou engenheiro”, ele quer ser um realizador. Ele quer mostrar resultado. A engenharia está presente em tudo, vale repetir. Ela faz com que você se planeje e se organize. Ao mesmo tempo, entendo que precisamos ser pessoas mais abertas e treinar o lado humano. O profissional precisa se aperfeiçoar o tempo todo, fazendo cursos e participando efetivamente das questões da sociedade.

 

Em Campos de Jordão, o senhor esteve à frente de uma equipe. Como foram as competências e atitudes empreendidas nesse comando e na integração das diversidades?

250 Murilo 29AGO2018 3A área técnica nossa comandava 23 cidades daquela região. Tínhamos engenheiros, técnicos, eletrotécnicos, auxiliares, eletricistas, chefes de turmas, gerentes, operadores de subestações. Éramos mais de 60 pessoas. Temos de tratar diferentemente as pessoas à medida que elas vão se diferenciando, esse é o princípio da igualdade. Não dá para tratar todo mundo igual. Se você conseguir entender que cada um é uma pessoa, as coisas dão certo, caso contrário você só consegue criar conflitos.


E é preciso estimular o trabalho da equipe. Por exemplo, tínhamos um trabalho de campo que era o de manutenção de redes elétricas. Para isso, era preciso desligar a energia de madrugada. Às 4 horas da manhã, estão todos lá, e eu ia junto. Pegava o meu fusquinha e ia acompanhar o trabalho deles. Isso tudo foi um aprendizado profissional enorme para mim.

 

E como foi voltar à Capital?

Acabei aprendendo coisas novas dentro da Cesp. Depois de um tempo fui promovido para uma área onde eu ia trazer toda a minha experiência do trabalho realizado em Campos de Jordão. Nesse momento comecei a participar da associação dos engenheiros (da Cesp), onde ocupei diversos cargos. Éramos fortes. A companhia tinha quase 2 mil engenheiros e todos sócios da associação.


Nessa época, fui convidado para ser gerente técnico de Atibaia, e acabei mudando para lá. Depois de dois ou três anos, fui convidado para ser assessor da diretoria, na Capital.

 

O início da atuação no sindicato se deu como?

Participando na associação, eu já era também delegado sindical junto ao SEESP. O meu primeiro cargo na diretoria foi de segundo tesoureiro, depois vice-presidente. E agora estou na quinta gestão (2001-2005, 2006-2009, 2010-2013, 2014-2017, 2018-2021) como presidente. Essa atuação me dá oportunidade de realizar a vontade que sempre tive de representar, de ajudar, de ver resultados, de lutar por direitos. Se mantivesse apenas a trajetória profissional, não estaria plenamente realizado.

 

O que o senhor traz da sua experiência de gestor na Cesp para o sindicato?

Eu estive à frente de diversas equipes durante minha vida profissional. A minha realização é trazer conhecimento, participação, juntar forças e de fato saber representar o melhor possível os profissionais. Há situações diferentes e saber lidar com elas sem nervosismo faz a diferença. Tudo com calma, transparência e respeito. Assim é muito mais fácil enfrentar e resolver os problemas e as questões.

 

O senhor se arrepende de alguma coisa nesse caminho?

Não, nem um pouco. Se eu tivesse de fazer tudo de novo, faria do mesmo jeito. Desde que comecei a estudar até agora. Só me arrependo do que não fiz, tudo o que fiz foi muito bom. E isso não é frase feita, é a verdade. Eu me sinto muito bem. Aqui no sindicato a gente se realiza enquanto profissional, pessoa, equipe.

 

Um conselho para os estudantes e para o profissional da área.

A palavra é otimismo, porque as coisas vão mudar e melhorar. Não tem como viver sem engenharia. A palavra para o estudante é que se dedique, vá em frente, tenha coragem e vontade, e que não fique só no caderno, participe das discussões da sociedade para ajudar na construção de um País melhor, justo e bom para todos nós.

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