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24/05/2018

Causas e possíveis consequências do caos

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 José Manoel Ferreira Gonçalves

 

Em primeiro lugar devemos ter em mente que embora todos chamem de greve, o que vivemos não é exatamente greve, é mais uma pressão do pequeno patronato representado pelos freteiros contra o governo, no sentido de viabilizar seu negócio e/ou aumentar seus lucros. Greve é de trabalhador contra empregador, é de uma classe contra a outra. E, veja-se, os motoristas funcionários pararam quando foram assim orientados pelas empresas para as quais trabalham.

Protestam, portanto, não contra o patrão, mas em favor dele. Trata-se de uma distinção técnica relevante para a qual nenhuma atenção da grande mídia está dispensada. Mas, ok, por convenção (ainda que inapropriada), chamemos de greve.

Várias organizações agiram para essa paralisação, com destaque para a Confederação Nacional dos Transportadores Autônomos (CNTA) – que inclusive havia alertado o governo, que mais uma vez nada fez –, mas trata-se acima de tudo de uma greve espontânea da classe de pequenos proprietários de caminhões, marcada através de aplicativo de celular.

Outros sindicatos se juntaram aos protestos, como a Associação Brasileira de Caminhoneiros (Abcam) e a União Nacional dos Caminhoneiros do Brasil (Unicam). E, por fim, acabaram engrossado os protestos os caminhoneiros de frota, funcionários de transportadoras. Isso significa que as próprias empresas aderiram.


E o governo? Nada de concreto consegue apresentar. A proposta de baixar o preço em 10% por 15 dias é aviltante. Os caminhoneiros não são ingênuos, é preciso respeitar sua inteligência. Vivemos um governo manietado, engessado pela camisa de força da ilegitimidade, pela falta de apoio, que não ultrapassa 4%, simplesmente o menor índice do mundo.

No começo da noite de ontem (23) havia 253 pontos de protestos, em 23 estados brasileiros e no Distrito Federal. O desabastecimento cresce, a população está assustada, os postos de gasolina estão inundados de motoristas apavorados, supermercados, vendo o estoque desaparecer. Já houve até uma morte, e o pior pode ainda estar por vir: motoboys, táxis e vans estudam parar e fala-se abertamente em greve geral.

Raízes profundas

Essa greve não surge do nada, tem raízes fortes e profundas. Temos uma logística comprometida por desgovernos seguidos. A história parece ter conspirado contra nossa logística. Seu princípio mais basilar, a intermodalidade, jamais foi praticado. Tivéssemos uma rede hidroviária (rios não nos faltam) e uma rede ferroviária minimamente compatível com a demanda, essa greve estaria limitada a um tipo de transporte.

 

Como tudo o que temos, é o transporte mais caro e mais poluente entre todos, o rodoviário. Nesse contexto, causa apreensão que essa greve seja usada para fins espúrios. O primeiro deles, que nos deixa bastante apreensivos, seria o governo querer agora, usando essa greve em seu favor, tocar concessões a toque de caixa, desrespeitando o interesse nacional e priorizando o de empresas interessadas que, no limite, poderiam inclusive estar agora apoiando a greve e o caos para esse fim.


O segundo é ainda mais alarmante. Lembremos um pouco da história recente. Nossa geração viveu isso, a geração mais nova estudou na escola: em 1973, o Chile vivia sob o governo eleito de Salvador Allende quando uma paralisação de caminhões culminou num dos golpes militares mais sangrentos da América Latina, empossando o general Pinochet, até então homem de confiança de Allende. Algumas décadas antes, uma paralisação em Berlim antecedeu e favoreceu a eleição que elevou Hitler à condição de chanceler (o equivalente a primeiro ministro de lá). Estejamos todos atentos, cidadãos, nada como o exemplo passado: quem desdenhou quis comprar e quem paralisou tomou o poder.

 

José Manoel Ferreira Gonçalves, presidente da Frente Nacional pela Volta das Ferrovias (FerroFrente) e coordenador do Engenheiros Pela Democracia (EPD)

 

 

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