Opinião

Por uma verdadeira reforma política
Antônio Augusto de Queiroz

 

Devido à rejeição do principal pilar da reforma política – o sistema de lista preordenada ou fechada –, a proposta ficou comprometida. O placar de 252 votos contra e somente 151 a favor é ilustrativo da afirmação acima. Isso impede o financiamento público das campanhas, já que essa modalidade de custeio para as eleições proporcionais (deputados e vereadores) só é possível no sistema de lista ou no voto distrital puro. E esse último exige emenda à Constituição.
Além disso, o instituto da fidelidade partidária ampla, com a transferência do mandato do deputado para o partido, também fica inviável com a rejeição da lista. O máximo que poderia acontecer seria a ampliação do prazo de filiação como condição para concorrer a um mandato eletivo.
Outro problema é a interpretação dada à Emenda Constitucional nº 52, que tratou da verticalização e impede duas outras propostas da reforma: o fim das coligações nas eleições proporcionais e a criação das federações de partidos, que poderiam ser declaradas inconstitucionais, se aprovadas. É que, segundo a emenda, os partidos políticos têm autonomia plena para “adotar os critérios de escolha e o regime de suas coligações eleitorais, sem obrigatoriedade de vinculação entre as candidaturas em âmbito nacional, estadual, distrital ou municipal, devendo seus estatutos estabelecer normas de disciplina e fidelidade partidária”.
Com tamanhas limitações, a reforma ficaria irremediavelmente comprometida. Somente três ou quatro pontos seriam viáveis na esfera infraconstitucional: a ampliação do prazo de filiação e a adoção de alguma regra de inelegibilidade para quem mudasse de partido, a proibição do prefeito reeleito trocar de domicílio para disputar novo mandato e outras alterações residuais.
Por tudo isso, uma reforma política para valer só será possível por intermédio de reforma na Constituição. Essa parece ser a única forma capaz de remover os obstáculos à viabilização de uma verdadeira mudança, que dê consistência ideológica e programática aos partidos políticos e resgate a credibilidade do sistema político brasileiro.

Antônio Augusto de Queiroz é jornalista, analista político e diretor de documentação do Diap (Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar)


 

 

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